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.: Chupar fronha é meio de vida de muita gente :.
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"A descoberta de uma nova iguaria contribui mais para a felicidade do gênero humano do que o descobrimento de uma estrela". Jean-Anthelme Brillat-Savarin, França, [1755-1826]
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Os "Sem Noção" PDF Imprimir E-mail
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Por Administrador   
04/09/2007
Tenho um amigo de longa data, ele é escritor com vários livros publicados. O cara estudou um monte sobre numerologia, astrologia, feng shuei e por aí vai. Dono de uma cultura ímpar é um papo daqueles intermináveis. O nome dele é Roberto Bo Goldkorn e o texto abaixo eu peguei de seu recém criado blog.
Tenham uma boa leitura.
Mário

Os "Sem Noção"
por Roberto Goldcorn
A Mega Sena estava super acumulada. Se não me engano o prêmio girava em torno dos vinte e tantos milhões de reais. Uma repórter entrevistava apostadores numa fila na casa lotérica: “E o senhor, o que faria se ganhasse sozinho?”
 “Eu sou pedreiro sabe? Se eu ganhasse essa bolada nunca mais iria para a obra de ônibus, só de táxi.”
Recentemente no velório do meu pai uma conhecida se debruçou sobre o corpo e colocou um crucifixo sobre o peito dele, dizendo: “gente esse homem bom não pode ficar sem a proteção divina”. O detalhe meu pai era judeu e fez recomendações expressas quanto ao uso de liturgia católica. Ela sabia mas achou que “morto não tem querer.” Não sei se estou ficando mais chato e crítico ou se o contingente dos sem noção está aumentando. São pessoas comuns, não são bandidos, não agridem a sociedade mas sua postura sem o senso de oportunidade, sem a auto crítica, cria ruídos na comunicação, perturbam e as vezes estressam a gente. Não sei nem mesmo conceituar essa “categoria” de humanos, mas talvez seja algo assim: gente ignorante da própria ignorância. E ignorância aqui não se refere apenas a falta de conhecimento ou de saber. Ignorância das regras não escritas de comportamentos aceitáveis, de posicionamento no cenário social, ignorantes da própria imagem. Um exemplo? Na final dos Jogos Pan-americanos, a maratona. Como sempre a câmera pega os sem noção que começam a correr ao lado dos corredores que estão na frente. Um gordinho trotava tão desesperado para aparecer no enquadramento do atleta que ia à frente, que por duas ou três vezes por pouco não se arrebentou no chão. Eu em casa perplexo me perguntava: Por quê? O que ele pretendia com isso? “Aparecer” na televisão? Ter dez a quinze segundo de “fama”?
Outro dia numa reunião de intelectuais um rapaz que estava ouvindo uma discussão sobre o papel da universidade na sociedade resolveu dar a sua opinião, falando sobre as tais cotas raciais. Isso absolutamente estava fora daquele debate, mas ele insistiu. O professor que estava dirigindo o debate ainda tentou humildemente recolocar o rapaz na linha da discussão. Por motivos desconhecidos ele começou a se alterar, aumentando o volume de voz e atacando esse professor, uma das maiores autoridades mundiais em política universitária. Pela sua maneira de falar todos perceberam que se tratava de uma pessoa sem instrução. Imaginem o constrangimento dos outros participantes. Obviamente ele não sabia quem era o professor e desconhecia também o tema do debate mas sem noção de sua própria ignorância, sem noção das regras básicas de educação e de civilidade, começou a neuroticamente vociferar sobre um tema que achava que dominava, e ao perceber uma rejeição natural desencavou ressentimentos sociais confusos.

Porém um dos mais marcantes exemplos de sem nocionisse foi meu mesmo. Quando tinha dezesseis anos fui convidado para servir de guia de turistas para um grupo de sul africanos ricos. Fomos a uma boate em Copacabana, na verdade a minha primeira vez num ambientes daqueles (eu era menor de idade). Estava deslumbrado. O grupo também estava muito contente comigo pelo meu inglês bem falado, pelo meu conhecimento das coisas do Brasil etc. Já vislumbrava uma recheada gorjeta no fim da noite. Lá pelas tantas da madrugada não sei por que motivos, eu resolvi atuar socialmente e disse para uma parte do grupo: vocês não acham que seria bem melhor para todos se pudessem viver em igualdade com os negros de seu país, sem o apartheid?” Imediatamente os sorrisos sumiram dos lábios de todos. Em meio a música alta da boate apenas um das mulheres se dignou a responder: “Rapaz  esse não é um assunto para se discutir num night club”! A noite acabou ali mesmo. Não houve mais sorrisos, nem elogios, nem mesmo gorjetas. Se fosse hoje em dia meu apelido certamente seria “Robertão sem noção”.

Fui a uma reunião social há algum tempo. Só havia homens e de repente uma mulher conhecida do anfitrião surgiu acompanhada da filha pré adolescente. Era do tipo “mulherão” já na casa dos “quarenta e tantos”, muito extrovertida. Em pouco tempo já estava dominando as atenções turbinada pelos sucessivos pró secos. Um grupo discutia uma viagem em breve a Arábia Saudita para fechar um negócio milionário. Ela se inclinou sobre um dos homens, aparentemente o líder e se ofereceu para ir junto, se convidou oferecendo junto de forma quase ostensiva a promessa de muitas travessuras e gostosuras. Todos na reunião se entreolharam perplexos, como se dissessem “quem é essa sem noção?” E os olhares entristecidos da filha respondiam: “essa é a minha mãe.” Meses depois ela apareceu para uma consulta particular comigo. Sua queixa principal era a dificuldade de engrenar relacionamentos estáveis. Coisa que a deixava sem compreender, pois afinal de contas ela não era de se jogar fora...

A falta aguda dessa visão auto crítica, essa incapacidade crônica para se perceber faz o sem noção. Todos nós acredito, em algum ponto das nossas vidas, temos um momento de sem noção, mas os mais desastrados são aqueles que insistem em impor a sua falta de noção de forma ostensiva e regular. Como dizia magistralmente o Millôr Fernandes: “pior cego é aquele que quer ver.”

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